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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

TUDO É POSSÍVEL?

     Dá para ficar assustadiço com as coisas que os homens inventam.... Leitor, não se assuste não! Inventando, eu digo por criar ilusões, não é uma arma nova no mercado não! Apesar, é claro, de terem inventado a bala que acerta sua trajetória no ar a mais de dois quilômetros de distância, mas isso é outra história.... Alguns senhores, por exemplo, afirmam que Deus abriu um centro de estética, logo você poderá comer aquela picanha gordurosa que é só rezar que perde seus quilinhos. Outro senhor diz para as senhoras que não é pecado chupar um pirulito de vez em quando, só não pode se melar com o melzinho (mas como? Abocanhou o canudo e agora vai ter que babar?).

     Imagine a cena. Deus com a sua barba longa e sedosa administrando a clínica de estética “corpo celeste”. A equipe médica, como dá para supor, seria composta por anjos e santos canonizados pela tradição, todos comandados pelo todo poderoso. Gabriel, Miguel e Rafael fariam a triagem dos pacientes, encaminhando-os para os santos que já têm a sua especialidade concretizada nas crenças das pessoas.

     – Miguel, encaminhe essa para o Dr. Expedito. Ela só está querendo perder dez quilos em apenas três minutos, como ele é PhD em causas impossíveis, talvez ele dê um jeitinho nela...

    – Essa daqui, Rafael, mande para o Dr. Jorge. Ele já está acostumado em enfrentar e espetar dragões mesmo.

    Rafael olha para o lado e se dá conta de um senhor que deseja erguer uma parte ínfima do seu corpo que há alguns anos anda adormecida.

    – E esse, Gabriel, o que faço com ele?

    – Ah, leve-o para o Dr. Benedito, ele sabe como erguer e fincar um mastro...

    Sigismunda negava-se a aceitar a anestesia de Adão, por que não de Eva? Não foi ela que fez o homem comer o fruto proibido e tornou-os meros mortais?

    Gabriel, vendo que Sigismunda atrapalhava a fila, que já estava maior do que a do SUS, encaminhou-a logo para atravessar o arco-íris...

    Como já existem clínicas de estéticas operando milagres nas gordurinhas indesejáveis, quem sabe algum dia nem precisemos mais ir a academia malhar para o carnaval, para a praia, ou até mesmo para ser um fisicultor, basta ir para a “Aleluia fitness” que seus músculos já saem “bombados”...

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

O VENCEDOR

      Odiava os perdedores... Desde criança se habituou com o jeitinho verde-amarelo de atingir seus objetivos nefastos, chegou até a subornar seus pais, já que descobriu que ambos pulavam a cerca com os vizinhos. Odiava os nerds e os cults, pois estes eram sempre perdedores (num país de energúmenos, tentar ser diferente é sinal de sandice). Roubava sempre. No futebol quebrava a perna de um se fosse necessário, quiçá o pescoço. Nas provas bimestrais colava de algum nerd, ameaçando-o, pois, se não desse cola, iria quebrá-lo na saída. Até nas relações amorosas, carnais, arrumava um jeito para se dar bem. Inventava fortunas, mansões e carros de luxo que só existiam na ficção de suas cantadas. Após o coito o vencedor afoito ia embora do motel, deixando para o encargo da moça a diária caríssima, o valoroso custo de sessenta reais (isso que dá ela ficar assistindo novela o dia inteiro... Só respira açúcares).

     No vestibular escolheu um curso que correspondia com a sua índole inabalável. Iria ser um bacharel em direito (claro que não seria um licenciado, assim a crônica se chamaria o perdedor, nem direito ao trabalho ele teria). Aprovou-se. Formou-se. Viu que a advocacia não lhe renderia muitos dividendos devido à condição social do país e à concorrência.

     Virou empresário. Sua empresa fartou-se devido aos viciados em jogatinas. Seus negócios giravam em torno de caça-níqueis e jogo do bicho. Tanto dinheiro tinha que ser limpo de alguma forma, foi por isso que o vencedor adentrou no ramo da construção civil. Além de lavar o dinheiro adquirido pelos seus negócios, ele ganhou mais ainda, já que adentrou na política e lucrava com concessões de obras superfaturadas. Com o dinheiro que dava para construir cinco escolas ele construía duas e embolsava o resto. Com os amigos ria alto e falava que sua fazenda de “laranjas” lhe rendia muito dinheiro, afinal o povo é que se dane.

    Candidatou-se mais tarde nas eleições a deputado federal. Venceu (não esqueça que ele é o vencedor). Mamou até onde pôde e não pôde nas tetas do estado, esta gata gorda e leitosa. Viveu como um rei absolutista em palacetes e carros de luxo. Entretanto, como a morte vence qualquer um, até mesmo os vencedores, chegou a sua vez, foi diagnosticado um tumor maligno em suas entranhas (ele que já era um para a sociedade, agora tinha um dentro dele). Contratou os melhores médicos que existiam, o que só prolongou o seu sofrimento. No dia de sua morte, o vencedor estendeu a sua mão magra e pálida cheia de fios e mangueiras e, mesmo entubado, sussurrou: Fui vencido. Caiu a mão e morreu. Foi sepultado como herói (nada mais comum, bandidos no final são sempre heróis) com o choro incontrolado da turba (são sempre esquecidos e perdem suas lágrimas com porcarias).