terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Doze de Dezembro


Sento na cama e vejo TV. Acho que o mundo acabou faz tempo, desde o dia em que abaixei meu traseiro na frente disso, a TV levou o meu tempo, a minha vida... Agora por este aparelho desgraçado fico sabendo do fim! Serei dizimado como os dinossauros. Apenas um cometa pra levar tudo em apenas um segundo. Não bastava viver à espera de um desastre por causa da bomba nuclear, da de nêutron, ainda tinha que vir um cometa. Olha, cometa, não se faz de besta e entra pra greta, não sou anacoreta, a meditar preces, a suplicar salvações...
O que farei quando vir o fim despertar pela janela? Será que amei o suficiente e quando o fim chegar rirei sarcasticamente, ácido? Não! Acho que não...
Pego o cigarro olhando o horizonte, sorrio lembrando de uma velha propaganda de cigarros que passava nas madrugadas de antigamente. Tenho o mesmo olhar de vencedor, igual ao do garoto propaganda daquela marca de cigarro, que tragava a fumaça distraidamente olhando o horizonte como se o mundo fosse seu. Ao contrário dele dou uma tragada longa e duradoura para me despedir da vida e do mundo, nada mais é meu! Agora não importa se morrerei de velhice ou de câncer.
Fumo um maço de cigarros inteiro e abro um litro de cachaça, sorvo o líquido pelo gargalo, a água-ardente desce pela goela, queimando-a. Tenho que partir degustando os melhores aromas e paladares.
Olho pela janela e sinto vertigem, desta altura seria fatal; penso, mas desisto. Embriagado, ficarei dormente e anestesiado, não sentirei o meu fim. Eu não o verei, como também não vi a vida passar com seus passos ligeiros e os pés cheios de calos.
Eu que sou sujeito às sujeiras e calamidades contemporâneas, que me achava tão limpo, serei uma sujeira a emporcalhar as patinhas das baratas. Sinto minha consciência distante e pesada. Nocauteado pelo álcool caio pesadamente em minha cama. Restará o silêncio e a nulidade da vida.
Acordo suado e rançoso, a minha pele está curtida pelo álcool. O mundo acabou? Estou em outra vida? Como, se a outra é igual a esta? Os mesmos barulhos, os mesmos vizinhos. No 412 a mesma transa matutina. É, o mundo não acabou, o cometa não caiu, a flor não sumiu... A única tragédia que aconteceu neste dia treze de dezembro de dois mil e doze foi mijar na borda do vaso sanitário, mas como não sou casado, a tragédia vira apenas mais uma vez entre outras tantas. Acabo de urinar e me dirijo para sala, encho um copo de cachaça, jogo um gole no chão e penso:
– É, não tem jeito! Você vai ter que nos aturar por um bom tempo, ainda...

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Littera dura


Recebi um cartão postal. Era de Pasárgada, Cândida tem um ótimo senso de humor, vive a caçoar-me. Logo de cara percebi que era alguma brincadeira, quem manda cartão postal nos dias de hoje? Ninguém...
Este fato aumentou ainda mais a saudade que eu sinto pela Cândida, apesar de ser uma traça entendia mais dos meandros literários do que reles indivíduos pouco dados aos segredos da littera dura. É, meu caro, quão duro é escrever, ainda mais nesta terrinha, neste planeta, nesta galáxia... Mas o que poderei fazer? Os viventes de Kepler não vieram me abduzir... Devem ser inteligentes como nós, pobres energúmenos mergulhados em certezas.
Penso em Cândida todo santo dia, apesar de que o dia não é santo... O tempo... este só pode ser do coisa ruim! Mas voltando à Cândida, só ela que me dava o prazer de um texto ruminado, deglutido, degustado... Ela era tão dedicada à literatura.  Por que não estás a farfalhar meus escritos na gaveta, Cândida querida? Não sei ... Só sei que uma pobre croniquetinha que eu escrevi causou uma comoção, como é bom ser odiado, me dá um tesão... Uma poetitica disse que não escrevo crônicas, que não é real o que escrevo. Escrevo o quê então, templo sapiensal? Ai meu Deus, minha vida perdeu o sentido e não quero mais viver, vou me afogar num copo duplo de coca-cola light, pois quero ir pra terra dos pés juntos em boa forma, sou um galã à Don Juan, quem sabe, talvez na paz eterna arrumo umas amantes mais inteligente do que esta alface...
Toda esta comoção por causa de meu textículo... Ao invés de ela desvendá-lo carinhosamente, absorvendo-o com os seus lábios babados de más intenções... A pobrecita me vem com verossimilhança... disse que eu não escrevo sobre a verdade, mas que burra, ela acredita que há algo real no mundo... Ela deve ser uma destas que perseguem escritores empunhando sombrinhas futuca marido bradando furiosamente: “é real ou não?”. Cuidado, colegas, quando a virem, fujam todos, ela é portadora da gripe asnoína tipo um.
A pobre diaba crê que a crônica é tão real quanto o espelho dela. Ela não sabe que as fronteiras entre o real e o fictício são tão frágeis como um copo de cristal se espatifando no chão, e que o peido que ela solta pode causar um tsunami no outro lado do mundo, mas isso é uma teoria, nós é que vivemos no caos.
Agora vou para minha Pasárgada, meu Éden, vou-me para os braços de Brigite, a minha boneca inflável... Acabei de adquiri-la, em seus áureos braços esquecerei destes ignorant asinus, da Cândida... Com Brigite serei feliz. 



sexta-feira, 12 de outubro de 2012

O representante


– Abaixo aquela coisa... Como é mesmo o nome? Ah! Lembrei... A obressão!
– Não! Meu filho, é opressão! Retruca a professora com a sua cara de choro.
– É... É essa parada mesmo! Chega... Chega de sopa de canjiquinha, queremos sorvete ou coca-cola com bolo!
Somente a professora levantou e aplaudiu, pois estava cansada de tomar sopa. Entretanto, acalmou seus aplausos, ela não podia ter partido. Ela não poderia traumatizar os pequenos.
– Muito bem, Carlos, pode sentar. Agora peço que o candidato da chapa dois venha aqui na frente discursar.
Era o Wesley, vinha com o dedo no nariz, limpando o salão, como dizem. Ao chegar na frente da turma, retira o dedo e limpa a meleca na camisa do uniforme e começa a gritar.
 – Vou acabar com todos deveres de casa. Queremos um basta a essa tortura, queremos brincar! A gente não quer só dever, a gente quer diversão e fazer arte... Por isso vote chapa dois e eu paro de roubar seus lanches no recreio!
Toda turma aplaudia efusivamente, não pelo seu discurso, mas por poderem, finalmente, comerem sossegados. Depois que tudo se acalmou, a professora chamou o próximo candidato, o Afonsinho.
– Faço minhas as palavras dos candidatos anteriores...
– Não, querido, você tem que explicar o porquê de seus colegas votarem em você como o representante de turma, advertiu a professora.
– Mas, por quê? Na televisão eles repetem as mesmas coisas, pensei que podia mudar!
– É, mas... Bem, faça as suas propostas e diga o que você tem que os outros candidatos não têm.
–Ah! bem, vote consciente, vote chapa três, pois eu sou... Sou ficha limpa!
– Ficha limpa?! Grita toda a turma em um som uníssono como se acabassem de acordar.
– É, oras... Vocês não veem televisão não? Sou um candidato limpo e cheirosinho. É só olhar no livro de advertências! Está em branco! Ao contrário da oposição que é corrida... Sou ficha limpa!

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Robalo é a Solução


Candidato a vereador vem pra colocar todo mundo pra dançar... Na saúde, na educação, é assim mermo... Robalo é a solução! Candidato 00171, aquele que não promete e também num faiz.
Sô contra os projeto, ontem mermo projetei uma viajem pras praias de Belo Horizonte, mas choveu, sorte a minha, pois fiquei sabeno que no estado de Belo Horizonte num tem mar... Como é que é? B.H. é capital de Minas, ah quem liga pra essas coisas de ortografia? Num é ortografia? Como é que é então? Hum é cartografia... Isso num é coisa de cartomante não? A gente aprendemo com os erro errado da vida... O que eu tava falano? Ah, dos projeto... Isso tudo é lenda! Ninguém projeta nada não! Na verdade verdadeira num sei nem o que é projeto.
Como vereador vô fazer muita coisa boa pras gentes... Mas, é claro, pras gente lá de casa. Tô deveno um Mercedes pro meu filhote, num consegui comprá no mandato anterior, pois tava pagano a nossa humilde residência de quatro milhão...
Prometo, e isso hei de cumprir, que num vô levar dinheiro na cueca e nem nas meia... A maleta já foi comprada e vai resolver esse pobrema, cabe muita grana nela, comprei a mais maior de grande!
O que vou fazer quando ganhar? Bom, vou viajar para Miami pra desestressar, campanha eleitora enervosa a gente, cara, to na maior pilha. E quando voltar vou negociar uns caixa dois aí, uns aumento salarial... Além da minha comissão das licitações superfaturadas... O meu negócio é faturar e se você num toma conta, um vem e te faz tomar sem vaselina. Então é isso, vote consciente, vote no candidato 00171, pois Robalo é a solução!!  

domingo, 29 de abril de 2012

I like brasileños


Um homem velho e, portanto, respeitoso levanta a sua cartola com o intuito de depositar um vintém. Seu fraque velho e a falta de dinheiro mantêm a decadência de sua figura. Sua cabeleira grisalha e sua barbicha de bode não têm a imponência de antigamente. Outrora gostava de uma carnificina, no Vietnã, no Iraque... Ainda que não tenha abandonado completamente...
Agora, por ironia do destino, ou por tostões furados, vende camisas – com os dizeres: I love America! – em frente ao New York Stock Exchange, a NYSE, a deusa do capital, que mora em Wall Street. Depois que abriram as porteiras para o new rich latino americano, nunca o sonho americano custou tão barato, míseros cinco “dólar”, além de acolher duas pessoas dentro dele, é feito mother heart: sempre cabe mais uns...
– Comprem! Imperctível! Por apenas um dólar a mais ustedes podem levar esta linda “bolígrafa” nas cores dos states...
Nosotros gostar much dos brasileños. The pueblo compram muchas camisas de lembrança de my country. I like brasileños! Eles não olhar nem a etiqueta para ver que a camisa é made in Taiwan. É... hoy é tudo as ... as... plataformas de exportação. Ah! Eu não ter mais as meat em barril, só pólvora mesmo... No ser mais carnicero, ser mesmo armeiro, eu vender muitas armas pro world (a economia de my country girar em torno da war). Ahora a deusa NYSE não estar muito de nuestro lado, assim que world gira, sempre pendendo para um side... E o outro tomando sabe-se lá no lugar que os brasileiños chamam onde saem as shit, excrements (eu no saber o nome em portuguese, há anos que yo no treinava!).
Vendi muita arminha e canhãozinho para os kids, mas não é os cowboys do old oeste americano, são para as criancinhas brincar de arrancar a cabeça dos soldadinhos de chumbo (precisamos de ideologias!). Ahora tem que ir ganhar my breakfast, my pão! Adorar os brasilenõs, antes gostava mucho de bater neles, mas hoy eles são vips! Life is funny!

quinta-feira, 29 de março de 2012

O Bonde das loiras


Encontraram-se como de costume, os sete. Lembraram-se do filme Onze homens e um segredo, entretanto, no caso deles, eram seis segredos e um homem. É evidente que tantos segredos assim não são fáceis de se ocultar ao mesmo tempo, ainda mais quando este segredo é loiro e anda de salto alto a realizar compras por aí. Ele se despediu das comparsas e foi esperar no carro que estava na frente do condomínio de luxo.
Seu pseudônimo é Clyde e espera ansioso em seu ford  (um novo modelo, pois aquele que o verdadeiro, o Barrow, usava, no início do século XX, no meio oeste americano, não é mais fabricado e está muito difícil de conseguir. Logo, o ford do Clyde falso, tem os bigodes aparados ...). Enquanto esperava, ensaiava em seu retovisor caras diferentes, como se fossem máscaras, pensando que estava em um filme de Hollywood.
Nesse interim, o tempo fecha. Que merda!
No dia seguinte, Clyde esperava vestido de jaqueta marrom, estava receioso, pois logo hoje a Marylin não poderia comparecer devido à chuva de baba que seu cão tinha jogado em seu cabelo,  estragando, dessa forma, o seu penteado empapado de laquê. Após duas horas de espera, seu smarthphone vibra, Bonnie avisava por torpedo que a sua chapinha tinha ido para cucuia, fora a unha de esmalte suiço da Malévola que tinha quebrado, e que o furto de hoje tinha naufragado. Clyde fica furioso, da última vez tinha sido o salto da Susan que quebrou, agora a unha, valha-me Deus! Assim não se pode trabalhar... Ainda mais agora que tinha ensaiado em seu retovisor todo seu repertório de caras adquiridas pelos filmes de Hollywood.
Clyde vai para sua casa de praia junto com Bonnie, seu amor bandido, lá ele pensa que é o George Clooney, já que ele é o único homem com seus seis segredos. Levanta as sobrancelhas tenta fazer caras e bocas, lhe falta alguma coisa, o que será?  Ah! Já sei, um porquinho amarrado na coleira.
Como tudo não dura para sempre, eles são descobertos quando curtiam um final de semana na sua casa de praia. Clyde, não abandonando sua visão cinematográfica dos fatos, fala que resistirão até que seus pulmões lhes faltem, logo não iria se entregar facilmente. Enquanto pensava num fim triunfante, estilo velho oeste, Bonnie se entrega sem que ele perceba. Agora os dois vão viver um sonho de liberdade...