domingo, 17 de março de 2013

Ideias no seu lugar


Souberam que ele estaria lá, naquele banheiro público de shopping. Com seus cabelos alisados, e com a sua infeliz boca da qual só sai merda, no sentido literal da palavra. Depois de tudo que ele ousara falar em público, não poderia passar impune.
– Mayday, mayday! 171 falando!
– Na escuta, 171, aqui é o Ponta Grossa.
– O digníssimo se encontra no shopping, caminha com passos apressados, veste terno, e está com os cabelos empapados de laquê, ele fez a chapinha hoje! Está se dirigindo para o banheiro.
– Copiado, 171. Solta pra geral. Sinal verde para a operação “Ideias no seu lugar”. Cuidado pra não causar alarde. Ele pode se evadir do local.
– Ok, Ponta Grossa! Copiado e operando.
A notícia rolou solta nos walk talks dos celulares. Quando o digníssimo entrou no banheiro, quatro armários tamanho família o encurralaram em um canto.
– Seu fanfarrão de uma figa...
– O que-que que-e é?
Ponta Grossa, que tinha dois metros e meio só de músculo, pegou o digníssimo pelo colarinho e o suspendeu como se fosse um boneco desnutrido de Olinda.
– Como é? Tu não vai falar as mesmas coisas que disse lá não? Ou será que vou ter que te obrigar.
– Fa-falar o que-que?
– Cuidado, Ponta Grossa, o digníssimo vai te molhar...
– Como?
– O digníssimo acaba de mijar nas calças.
Ponta Grossa solta o digníssimo como um saco de batatas. Dá-lhe dois tabefes na cabeça.
– Só porque é político e presidente da Comissão dos Direitos Humanos, tu não pode sair falando assim da gente, seu mijão. Maldição patriarcal... parece que é doido.
– Vo-vocês têm que entender...
– Tem que entender uma ova. Ponta Grossa, vamos dar umas clareadas nas ideias dele.
O grupo não precisou ouvir mais nada. Pegaram as pernas do digníssimo e saíram puxando-o em direção ao vaso sanitário. Ele cravou as unhas no chão do banheiro e, por onde passava, deixava as marcas de suas unhas. Implorava pelo amor de Deus que o deixassem ir embora. Não contaria nada, mas de nada adiantou as suas súplicas.
Enquanto um vigiava a porta, dois seguravam suas pernas, mergulhando-o no vaso sanitário, e outro acionava o botão de descarga. Desentopem o vaso com sucesso e se evadem do local.
Sozinho no banheiro, o digníssimo, aos prantos, passa as mãos pelos seus cabelos, inconsolável. Balança a cabeça, não acreditando no que acontecera, era o maior desastre de sua vida.
– Ai, meu Deus, estragou a minha chapinha! 

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